Sono e Saúde Mental

Mas além disso, o sono é importante para a prevenção de doenças. Na professora de Magé, a insônia acarretou ansiedade e problemas de peso. Especialista em medicina do sono e integrante da equipe do Instituto do Sono, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a médica Luciana explica que o sistema de defesa do organismo é prejudicado quando o indivíduo dorme pouco ou mal e isso aumenta o risco de doenças, principalmente as cardiovasculares — hipertensão arterial, pressão alta, infarto, derrame cerebral — e as doenças metabólicas que incluem obesidade e diabetes.
Distúrbios do sonoCom base nas informações de uma pesquisa do Instituto do Sono que acompanha as consequências dos diferentes distúrbios do sono na população da cidade de São Paulo — e cujos resultados ainda estão em fase de avaliação de dados —, Luciana afirma que atualmente ocorre uma “epidemia do sono insuficiente”, com os paulistanos dormindo em média seis horas e meia durante a noite. A primeira parte do estudo (intitulado Episono) revela que 77% dos paulistanos sofrem de algum tipo de distúrbio do sono; 60% queixam-se de insônia — sendo 45% apenas queixa e 15% configurando transtorno de insônia; 41,7% roncam; 32,9% são portadores de apneia obstrutiva do sono; 24,3% têm pesadelos constantemente; e 9,3% sofrem com o bruxismo (ranger ou apertar os dentes).
No consultório de Luciana, as queixas mais frequentes são a insônia e a apneia — parada respiratória devido a obstrução das vias aéreas. Depois entram as parassonias que se referem aos comportamentos inadequados durante o sono, a exemplo do sonambulismo, terror noturno, sonilóquio e paralisia noturna. “São fenômenos que podem estar ligados a um componente genético mas também existe uma tendência comportamental que, a partir de uma mudança de hábitos, pode gerar uma diminuição dos episódios”, diz Luciana, comprovando a tese de que a restrição do sono está relacionada tanto a fatores internos quanto externos. “A preocupação, o estresse ou mesmo um ambiente de sono barulhento ou luminoso também são responsáveis pela má qualidade do sono”. Entram nesse rol ainda, segundo ela, os distúrbios psicológicos, como a depressão, que também levam à falta de sono.
Homem sem sonoSome-se a isso o fato de a vida contemporânea favorecer o estado de alerta do corpo 24 horas por dia. Certa vez, o médico e pesquisador brasileiro Sergio Tufik, referência mundial nas pesquisas sobre o sono, assim explicou a mudança do ritmo biológico do homem moderno. Antigamente, o sol nascia e bloqueava a melatonina (hormônio que faz a pessoa dormir). "Com a iluminação artificial tudo mudou. As pessoas podem trabalhar e se divertir à noite, isso sem falar na televisão, na internet e em todos os outros recursos disponíveis. A modernidade fez com que as pessoas passassem a dormir menos”, disse. Para Luciana, não há dúvidas de que o estilo de vida moderno está prejudicando o sono. Dormir com aparelhos eletrônicos como computadores e celulares ligados, atrapalha. Levar trabalho para a cama, também não ajuda. E recorrer à medicação estimulante para driblar o cansaço, a fim de dar conta das atividades durante o dia, é uma péssima ideia que causa dependência e traz efeitos colaterais.
Dormir pouco ou mal também pode ser sintoma da falta de tempo muito associada à vida urbana e circunstâncias de trabalho inadequadas. Para a medicina do sono, há um grupo de trabalhadores que merecem atenção especial: motoristas de ônibus profissionais, maquinistas de trem, pilotos de avião e trabalhadores noturnos. Na década de 90, um estudo do Instituto do Sono de São Paulo monitorou motoristas e trabalhadores por turno (aqueles que a cada dia trabalham em um horário ou sempre trabalham à noite). Ao entrevistar 400 motoristas, constatou que 16% relatavam que dormiam enquanto estavam dirigindo — em uma média de oito cochilos por viagem. Os dados alarmantes acabaram contribuindo para uma mudança na legislação e ajustes nas condições de trabalho. Hoje, entre os critérios para obtenção da Carteira Nacional de Habilitação de tipos C, D e E, está uma avaliação dos distúrbios de sono. A nova legislação do trânsito também limita o tempo para dirigir a 11 ou 12 horas, e estabelece, no mínimo, 11 horas de descanso entre um período de trabalho e outro.
Mas o que acontece no organismo quando dormimos? De onde vem o sono? Luciana explica que o primeiro estágio (cientificamente chamado de N1) corresponde à transição da vigília para o sono mais profundo, mas o organismo ainda se encontra em sono leve. Somente no estágio seguinte (N2), o cérebro se desconecta totalmente dos estímulos do mundo real. Depois disso, o indivíduo entra no estágio 3, ou N3, que é o momento do sono profundo ou sono de ondas lentas. “Durante esse estágio, que corresponde ao sono reparador, existe um descanso da atividade cerebral, ocorre a diminuição da frequência cardíaca e da pressão arterial e há um aumento da produção do hormônio do crescimento”, continua a médica.
O último estágio, conhecido como sono REM (do inglês, movimento rápido dos olhos), é a fase em que ocorrem os sonhos mais complexos e de maior significado emocional. Nesse estágio, a atividade cerebral é intensa levando a um estado que, de tão ativo, se assemelha à vigília. “A gente diz que é um outro estado de consciência”, continua Luciana. “Essa alternância que ocorre durante o sono de períodos de menos atividade cerebral com picos de muita atividade prepara o cérebro para o indivíduo estar física e emocionalmente bem durante o dia”.
Aprendendo a dormirCair nos braços de Morfeu — como se diz na expressão popular que remete ao deus grego que personifica os sonhos — não é tão simples. É comum ouvir que, para um sono tranquilo e reconfortante, são necessárias de sete a oito horas por noite. Ocorre que essa necessidade é individual e geneticamente determinada, assegura Luciana. Há os dormidores curtos que são mais resistentes à privação de sono e que, ao dormir por cinco ou seis horas, ficam bem. E existem aqueles que precisam de nove horas. A boa notícia é que é possível aprender a dormir bem.
Segundo Luciana, a insônia, por exemplo, já conta com um tratamento baseado na terapia cognitiva comportamental que aposta na mudança de hábitos, o que significa alterar o modo como a cabeça funciona para o sono. “É preciso ensinar o cérebro a relaxar antes de ir pra cama”, diz. Dentro da higiene do sono — que pode ser definida como um conjunto de regras gerais para garantir uma boa qualidade de sono — entram desde evitar o uso de eletrônicos e contar com ambiente pouco ruidoso e de baixa luminosidade até manter os horários mais regulares. Não é mito: alimentação leve ajuda; álcool e estimulantes atrapalham. E quanto aos exercícios físicos, eles também auxiliam mas o horário ideal para praticá-los vai variar de pessoa para pessoa. “Você não pode comparar o seu sono com o do vizinho”, acrescenta Luciana.
Mas o mais importante, assegura a especialista, é consultar o médico especializado. A polissonografia — exame que monitora os pacientes dormindo por uma noite é o método diagnóstico mais objetivo para a avaliação do sono e das variáveis fisiológicas. Luciana diz que, depois de diagnosticado o distúrbio, os tratamentos podem variar. No caso do ronco e apneia, por exemplo, pode envolver tratamento para perda de peso ou intervenção nasal, em alguns casos, cirurgia, e muito frequentemente, o uso de aparelhos ou máscaras durante o sono.
NO SUSO SUS oferece tratamento integral para casos relacionados ao distúrbio do sono. À Radis, o Ministério da Saúde informa que o atendimento inicial é feito nas Unidades Básicas de Saúde e, quando necessário, o paciente é encaminhado para atendimento em uma unidade especializada. A polissonografia — que quantifica e qualifica o sono do paciente — pode ser feita no laboratório do sono em ambiente hospitalar ou em domicílio e registra, entre outras coisas, ronco, frequência de pulso, fluxo de ar, oxigenação, posição, esforço respiratório e eletrocardiograma.
Atualmente, o Brasil conta com 79 estabelecimentos que atendem pelo SUS e possuem serviços especializados em neurologia e neurocirurgia, com classificação da polissonografia. De acordo com o Ministério da Saúde, existem ainda outros 277 hospitais especializados que não possuem classificação do procedimento, mas que estão aptos a realizar os atendimentos necessários para tratar dos distúrbios do sono. Cabe aos estados e municípios identificar as necessidades de acordo com as regionalizações e disponibilizar a assistência diagnóstica e terapêutica necessárias. « Voltar